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Declaração sobre a Construção da Biblioteca no Teatro Salvador Marquês
Declaração do vereador Rui Rei sobre a Construção da Biblioteca no Teatro Salvador Marquês.

Veja a declaração:

 

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TEATRO SALVADOR MARQUES –
– 1 SÉCULO DE HISTÓRIAS

A ideia de construir um teatro em Alhandra remonta a meados do século XIX, o que veio a concretizar-se a 26 de Novembro de 1865, com a construção do antigo Teatro Thália Alhandrense, situado próximo da estação de caminhos-de-ferro desta Vila.

Mais tarde, devido ao interesse da população local pela arte de representar e sentindo a necessidade de um novo espaço teatral, que acolhesse condignamente a afluência do público, é constituída em 01 de Março de 1886 uma sociedade anónima que, graças ao esforço da população local que se propôs reunir algum dinheiro por subscrição pública, inicia a construção do Teatro Salvador Marques.

Contudo, pouco tempo depois do seu início, as obras de construção foram interrompidas durante dezasseis anos, altura em que o edifício se encontrava apenas com 2 metros de paredes, vindo a sua construção a ser retomada por  iniciativa de  Francisco Filipe dos Reis.

O novo Teatro, que recebeu o nome de Salvador Marques (em homenagem a este grande dramaturgo alhandrense),  teve a sua inauguração a uma 2.ª Feira, dia 10 de Janeiro de 1905, com a comédia “Comissário de Polícia” de Gervásio Lobato e desempenhado pela magnífica Companhia de Teatro do Gimnásio de Lisboa, com o grande actor Valle como protagonista.

Também foi ele que recitou estas duas quadras de Acácio de Paiva que achamos de interesse serem conhecidas:


“Temos mais um teatro; muitos manos
  Conheço do neophito presente;
  Uns mais crescidos, outros com mais anos
  Mas nenhum mais bonito certamente.

  E era bem de supor que ele assim fosse,
  Nascido entre madrinhas tão formosas;
  Parece que uma fada ao mundo o trouxe
  N’um açafate a transbordar de rosas!”


Assim se exortava os dotes deste edifício, considerado na época, um dos melhores teatros do país e uma das mais belas salas de espectáculos em toda a região.

Com uma arquitectura de estilo clássico, de raiz italiana,  e um interior ricamente decorado (tendo um pano de boca de cena da autoria de Veloso Salgado), esta sala de espectáculos, reproduzia o aspecto do (já extinto) Teatro Apolo em Lisboa.

Tinha uma estrutura interior belíssima, sendo composta por um balcão, plateia e duas ordens de camarotes, dispondo, igualmente, de um restaurante e de um salão nobre.

Ao todo disponibilizava uma lotação de 400 lugares de plateia e 30 lugares de camarotes.

Passados 4 anos, mais precisamente em 1909, houve um grande terramoto no vale do Tejo que fez grande número de vítimas e destruiu muitas terras desta região (como Benavente, por ex.), sofrendo o nosso Teatro Salvador Marques com este terramoto, que lhe derrubou o frontão que originalmente coroava a sua fachada.

A valorosa peça “Os Campinos” de Salvador Marques, foi apresentada pela primeira vez nesta sala de muita beleza, e representada por amadores de Alhandra, a 23 de Março de 1913, em benefício dos Bombeiros Voluntários desta Vila.

Em 1914 com a substituição da iluminação interior, que era de acetileno, por luz eléctrica fornecida através de gerador próprio, foi possível iniciar as primeiras projecções de cinema no Teatro Salvador Marques.

Em 1935, Felipe dos Reis regressa à actividade teatral com a sua filha Manuela Câncio dos Reis e o seu genro, o escritor Soeiro Pereira Gomes, levando à cena em Maio de 1935 a revista “Carnaval”, que volta a ser representada em Junho no Teatro Taborda. Em 1937, os mesmos lavam à cena a revista “Sonho do Luar”, onde um dos “Quadros” era dedicado aos miúdos dos telhais, tão retratados por Soeiro Pereira Gomes na sua obra “Os Esteiros”.

Infelizmente, o eco dos aplausos, já lá vai há 57 anos (desde 1948), mas o Teatro Salvador Marques recebeu as principais companhias teatrais da primeira metade do século passado.

Foi, aliás, palco das maiores companhias e dos melhores artistas nacionais da época, como a de Vasco Morgado, Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro ou Rentini, e dos pais de Camilo de Oliveira – todos tinham passagens asseguradas pelo Teatro Salvador Marques durante os seus períodos áureos, sem, no entanto, nunca deixar de apoiar os grupos de teatro amador.

 

DE TEATRO A CINE-TEATRO

Após muitos anos de sucesso, e até à década de 30, o Teatro Salvador Marques, classificado como um dos melhores teatros de província da primeira metade do século, manteve as suas actividades cinematográficas e teatrais conjuntas, mas no entanto, deixou de ter a afluência que o caracterizava, passando comercialmente a viver dificuldades.

E é então, que o Teatro Salvador Marques, é adquirido, passando a ser propriedade da Associação do Hospital Civil e Misericórdia de Alhandra (A.H.C.M.A.)

Na década de 40 o Teatro muda de nome, passando a designar-se Cine-Teatro Alhandrense, exibindo unicamente cinema, incluindo as grandes produções nacionais.

Mais tarde, já nos anos 60, o nosso Teatro, entra em decadência financeira, acabando por ser alugado a um empresário de cinema que o converte a Cine-Teatro  Salvador Marques.

Começa a actividade da Lisboa Filmes, como empresário deste (agora) cinema, levando, entre 1964/65, o edifício a realizar obras que alteraram profundamente a sua fachada.

Mas há que relembrar, os momentos mágicos do cinema, de cowboys e mágicos dos endiabrados filmes de aventuras americanos que deliciavam a rapaziada e os adultos apreciadores deste género. O prodígio do Douglas Fairbanks que fazia delirar de entusiasmos multidões de cinéfilos, ou do romântico Rudolfo Valentino que trazia as moças “sonhadoras” a suspirar por ele. As vedetas nacionais e internacionais que por esse tempo estavam na moda. Os cómicos inesquecíveis dessa época, como Charles Chaplin (Charlot), Harold Lloyd ou Max Linder, que faziam esquecer as agruras da vida e até o próprio jantar...

Nessas 5ª feiras ou nesses fins-de-semana, eram as filas dos “desafortunados”, que não dispunham de 1$50 ou 2$50, na maioria miúdos da casa dos dez anos, que “namoravam” o bilheteiro para os deixar entrar.

Teve como bilheteiro, desde que começou a actividade da Lisboa Filmes como empresária deste cinema, A. Maneira Guimarães que dedicou 35 anos da sua vida ao Cine-Teatro Salvador Marques, entre 1927 e 1962 (desdobrando-se com a de delegado de parceria com Victor D. Carvalho, técnico de projecção e seu companheiro).

Tempos estes onde nada faria supor, com esta qualidade de frequentadores, que um dia levaria a empresa à “falência”.

Nos últimos anos de actividade, todavia, começou a exibir filmes pornográficos, numa tentativa de angariar mais clientes. O resultado foi o afastamento e desinteresse por parte da população de Alhandra de um “ex-libris” local.

 

DO AUGE À DEGRADAÇÃO DE UM TEATRO

Finalmente, em 1984, o Teatro Salvador Marques fechou as suas portas indefinidamente “para descanso do pessoal”, tal como dizia num letreiro, exposto no local, até há poucos anos, ficando reduzido ao abandono e à degradação, restando-lhe apenas uma pálida e triste imagem daquilo que foi nos seus tempos áureos.

Até há duas semanas atrás, quem se deslocasse até ao local repararia que a traça da fachada do teatro foi quase totalmente desfigurada com obras realizadas nas últimas décadas, a juntar ao enchimento de janelas e portas com a intenção de evitar os intrusos.

Apesar de tudo, ao longo dos tempos, têm sido desenvolvidos esforços para “ressuscitar” este espaço. Neste âmbito, aliás, a A.H.C.M.A., (agora) antiga proprietária do imóvel, desencadeou uma acção de despejo contra o então inquilino, só resolvida após um litígio de 10 anos nos tribunais. Só no princípio da década de 90, o Tribunal da Relação de Lisboa deliberou restituir o teatro à instituição.

Entretanto, em 1992, a Associação de Defesa do Ambiente e Património de Vila Franca de Xira (ADAPA), levou a cabo um conjunto de acções com o intuito de sensibilizar a opinião pública para a recuperação do Teatro Salvador Marques. Destas, salienta-se a exposição que esteve patente na Galeria Augusto Bértolo, no Museu de Alhandra, que incidia sobre a vida e obra do dramaturgo Salvador Marques, a actividade do teatro que adaptou o seu nome e os espectáculos e vedetas que por lá passaram.

Desde 1996 que se tenta encontrar para o imóvel um futuro que não seja o abandono, deterioração e, consequente destruição do Teatro Salvador Marques; apesar do interesse demonstrado no ano 2000 por parte da Câmara Municipal e do Ministério da Cultura.

 

TEATRO SALVADOR MARQUES
VERSUS MUSEU DO NEO-REALISMO

Abandonado desde meados dos anos 80 o Teatro Salvador Marques parecia, então, ter um futuro que não é o da degradação. Por volta de 1999, a A.H.C.M.A., antiga proprietária do imóvel, propõe-se  encetar negociações quanto à aquisição por parte da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira deste imóvel. Posteriormente, ambas as instituições desenvolveram esforços junto do Ministério da Cultura para restaurar o edifício e fazer dele um espaço de actividade cultural. O seu destino era incerto, mas já tinham sido feitas obras para evitar maior degradação. Uma das hipóteses para o seu futuro era transferir para este espaço o Museu do Neo-Realismo.

«Primeiro que tudo há que discutir qual o destino a dar ao teatro, uma vez que não se podem fazer obras ou alterações sem que haja um objectivo pré-definido», adiantou Brandão Soares, então vice-provedor (actualmente provedor) da A.H.C.M.A.. «Falámos com a Presidente da Câmara Municipal, Maria da Luz Rosinha, que se mostrou muito receptiva e colaborante e propôs-se contactar o [então] Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho».

Por seu lado, e de acordo com o mesmo dirigente, o ministro mostrou-se interessado em conhecer as instalações. De facto, segundo Maria da Luz Rosinha, «o ministro mostrou-se receptivo para analisar o processo. Trata-se de um imóvel muito degradado, com um relativo interesse e um espólio histórico muito importante, que devemos preservar. Por outro lado, há a necessidade de um espaço condigno para o Museu do Neo-Realismo, actualmente em Vila Franca de Xira», perspectivou a autarca.

De qualquer modo, o Ministério da Cultura «tentou apresentar a candidatura para a beneficiação do teatro. Foi um processo demorado mas já foi iniciado», vincou. Entretanto, o edifício já sofreu obras de recuperação, dado que se encontrava em avançado estado de degradação. Procedeu-se, então, à recuperação de muros que ameaçavam cair, assim como ao escoramento do telhado. Com tal intervenção foram gastos cerca de 4.500 contos pela A.H.C.M.A., tendo a Câmara Municipal comparticipado com aproximadamente 2.000 contos.

Mas o futuro do TSM estava dependente do Ministério da Cultura, aguardando-se até hoje, a visita do Ministro para decidir o destino a dar ao imóvel. Maria da Luz Rosinha garantiu, por seu turno, que tudo seria resolvido ainda no decorrer do seu primeiro mandato (1997-2001).

A A.H.C.M.A. começou por pedir 85.000 contos pelo antigo TSM, no entanto, no decorrer das negociações foi possível reduzir o valor para 65.000 contos, com pagamentos faseados, durante cinco anos.

Na reunião pública do dia 16 de Fevereiro de 2000, o Executivo Municipal da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, decidiu, por unanimidade, adquirir pelo referido valor o TSM de Alhandra, onde seria instalado o Museu do Neo-Realismo.

Contudo, um abaixo-assinado com 3.000 assinaturas de vilafranquenses, em defesa da permanência do Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira e contra a intenção da autarquia de transferi-lo para o Cine-Teatro Salvador Marques, em Alhandra, foi entregue directamente em mão à Srª Presidente. Este documento, divulgado pelo Movimento de Opinião Pública em Defesa do Museu do Neo-Realismo, considerava que a pretensão de desviar o museu para Alhandra era um acto arbitrário, injusto, leviano e insultuoso.

Tal posição fez com que este projecto não avançasse.

 

ESPAÇO CULTURAL S. MARQUES
VERSUS SOC. EUTERPE ALHANDRENSE (S.E.A.)

No entanto, a partir da  reunião de 3 Maio de 2000 a Srª Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira passou a defender a posição de que o Teatro Salvador Marques não tinha em si uma história que se enquadrasse numa recuperação em termos nacionais, dado o facto de nos situarmos muito próximo de Lisboa e nos termos do concelho, nomeadamente na freguesia de Alhandra, existirem espaços que poderiam, em termos de desempenho de actividade teatral, cumprir perfeitamente essa função, designadamente, a Sociedade Euterpe Alhandrense (S.E.A.), já que estava aprovado um projecto para a remodelação e ampliação da sede desta instituição,  não havendo condições para o apoio financeiro necessário à recuperação do Teatro Salvador Marques.

Em 2001, em Assembleia Geral da S.E.A., no âmbito de um protocolo entre a Câmara Municipal  e a Sociedade Euterpe Alhandrense, foi apresentado um projecto conjunto que incluía uma suposta recuperação do TSM e uma remodelação e ampliação da sede da S.E.A.., pondo completamente de parte o projecto inicial para a sua remodelação e ampliação, conforme referido no parágrafo anterior.

Esta proposta foi votada somente pelos sócios da S.E.A., cujo quorum à data não ultrapassou os 40 associados, sendo que destes cerca de 15 eram directores e funcionários. É fácil entender-se a legitimidade para um assunto que pela sua importância diz respeito à população em geral.

Com este novo projecto manter-se-iam as condições técnicas e de conforto do público, assim como outros espaços para novos fins: uma sala de exposições e outra para albergar uma associação. Também o modo de implantação do edifício seria adequado, para respeitar a situação dos dois lotes do quarteirão onde se insere, compondo-se em dois corpos: um principal (o sítio do actual teatro) onde seria  o auditório; o outro onde seriam  os espaços de apoio e os novos conteúdos. Permitir-se-ia assim a articulação por entre dois edifícios das duas ruas que limitam o teatro, ou seja, um projecto bem resolvido, como projecto em si.

Na aprovação das propostas finais do plano de pormenor da zona ribeirinha, a presidente da Câmara assumiu o compromisso de “preservar a memória [do teatro], o espaço em si, o valor e a utilidade pública”. O recuo de Maria da Luz Rosinha verificou-se quando, face à impossibilidade de implantar o Museu do Neo-realismo no TSM (plano de 1997), se atribuiu este à SEA, para melhorar as suas instalações, construindo um teatro novo (orçado em 600 mil contos), que acomodasse as ambições da colectividade.

Ninguém ponderou, contudo, a necessidade de preservar o edifício existente, como fizeram outros municípios ao longo do País, como:


• Póvoa de Lanhoso – que recuperou o Theatro Club de Póvoa de Lanhoso, que se encontrava, este sim,  em estado de ruína e que até os “frescos” existentes foram restaurados. Reaberto ao público em 2001, comemora este ano o seu centenário.
 
• Alcobaça, onde o seu velho cine-teatro, construído em 1944 e com características semelhantes ao de Alhandra, foi restaurado em 2004 com toda a dignidade.


Segundo o jornal Expresso, outros cine-teatros regionais, designadamente em Alenquer, Cartaxo, Santarém, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras, estão também em “projecto de reabilitação”, bem como o Cine-Teatro Gil Vicente, em Barcelos.

O projecto de reabilitação do edifício a partir deste momento passou a ser candidato a apoios comunitários no âmbito de um Plano Global de Revitalização da Zona Ribeirinha de Alhandra, visando a recuperação urbanística e paisagística desta vila.

A Presidente da Câmara admitiu, ainda, que estas candidaturas deveriam ter nos primeiros dois anos uma execução superior a 65 por cento, o que implicaria que as obras seriam visíveis dentro de 2 anos.

Este projecto esteve integrado nos projectos que a autarquia pretendeu candidatar ao III Quadro Comunitário de Apoio  - Programa Operacional da Cultura (POC) em 2001, que não avançou por falta de financiamento.

Em 2003 a S.E.A. apresenta uma nova proposta para as suas instalações, que foi aprovada em Assembleia Geral pelos sócios, que consistia na proposta de venda do edifício-sede a um construtor com a contra-partida de este construir em terreno junto à Piscina do Alhandra. Sporting Clube um edifício com a área coberta de 2.000 m2.

Com a recusa do financiamento ao abrigo do POC e com esta nova proposta da S.E.A. facilmente se concluiria que o projecto conjunto da S.E.A. e do espaço do TSM tinha os seus dias contados.

Todo o processo estagnou, mas em finais de Abril de 2005 somos surpreendidos com a notícia de que o TSM vai mesmo ser demolido.

Questionada sobre a actual situação do TSM em Assembleia Municipal realizada no princípio de Junho de 2005, a Srª Presidente informou que o actual projecto do TSM é o mesmo que havia sido candidato aos apoios do POC em 2001, que não avançou por falta de financiamento e que a Câmara está agora na disposição de avançar para a obra, com meios próprios e alguns apoios de empresas.

Para isso, o edifício do TSM voltará à posse do Município, que desenvolverá a obra, comprometendo-se a entregar posteriormente a gestão da futura sala de espectáculos à S.E.A.

 

TEATRO SALVADOR MARQUES
ESCONDIA VALIOSO ESPÓLIO DESCONHECIDO

Como, segundo a autarquia, as instalações vão ser demolidas, esta entidade realizou uma prospecção de modo a verificar o que seria necessário recuperar para o futuro edifício a construir no local.

Os Técnicos do Município não esperavam encontrar dento do velho TSM, uma pianola (piano automático) intacta com 100 anos ou cenários do princípio do século XX. Durante o inventário realizado pelos especialistas, coordenados por Maria Miguel, foi posto a descoberto todo um espólio que se julgava perdido.

Fechado durante as duas últimas décadas, o espaço conservou a maior parte da história, iniciada em 1905, com a sua construção. Segundo Maria Miguel, no inventário preliminar, e tendo em conta as «dificuldades inerentes a um teatro em mau estado», foi possível verificar-se a existência de materiais de «grande valor histórico e patrimonial».

A pianola ainda estava encaixotada tal como veio da Alemanha, mantendo-se intacta, não existindo nos Museus portugueses «uma pianola que tenha este grau de preservação». Foram também encontrados objectos de Arte Nova, lustres de tecto e parede “muito valiosos” do fim do Século XIX, medalhões da sala de espectáculos, máquinas de projectar filmes e respectivas películas para projecção, o pano de boca de cena centenário (de Veloso Salgado) e uma desconhecida sala de mudança de cenários, que escondia materiais das décadas de 10 e 20 do século XX, designadamente vários cenários de valor incalculável.

Com a demolição agendada para o próximo mês de Julho, representantes do Museu do Teatro foram convidados a deslocarem-se a este espaço, na semana de 06 a 12 de Junho, para avaliar o património aí existente e qual o destino a dar ao mesmo.

Os Técnicos do Museu do Teatro ficaram surpreendidos com a riqueza durante a visita ao local.

Ao Jornal de Vila Franca, o Director do Museu, José Carlos Alvarez, adiantou que «não conhecia o Teatro pessoalmente» mas ficou «admirado pela dimensão e riqueza do espaço».

O responsável pelo espaço cultural lisboeta manifestou inclusive que «gostava muito que o Teatro fosse preservado e reconstruído».

Duas cadeiras da plateia, em ferro e madeira, datadas de 1900, os apliques de luz e parte das divisórias dos camarins rumaram ao Museu Nacional do Teatro, esperando Alvarez obter uma parte da envolvente da, conservada, boca de cena. Os referidos cenários seguiram também para o Museu Nacional do Teatro a fim de serem analisados por técnicos deste Museu.

O restante espólio como o lustre ou a pianola, ficou, segundo a pouca informação veiculada pelos órgãos de comunicação local, na posse do Município.

Existe ainda um piano vertical (visível junto ao palco na foto nº 20), que desconhecemos onde se encontra actualmente,  dado que sobre o mesmo a Imprensa nada refere.

No que se refere ao mobiliário do Salão Nobre (foto nº  39)  – 10  cadeiras de veludo vermelho e talha dourada, dois pechinches, um mesa com tampo de mármore verde e talha dourada e 2 candeeiros de tecto de estilo «Arte Nova» - destes encontram-se na Sala Salvador Marques no Museu de Alhandra apenas 9 cadeiras e  a mesa com  tampo de mármore verde. (Fotos nºs  49, 50, 51 e 52).

Desconhecemos o paradeiro das restantes cadeiras, dos pechinches, dos candeeiros, bem como dos outros dois candeeiros que existiam na fachada original do edifício (fotos nºs          ), podendo ser os tais objectos de Arte Nova encontrados na prospecção feita pela Câmara Municipal na semana de 06 a 12 de Junho de 2005.

Porque não tivemos acesso a todas as fotos existentes, quer  no Museu de Alhandra, quer no Acervo do Museu Municipal de Vila Franca de Xira, desconhecemos o restante espólio original deste edifício.

 

A FALSA RECUPERAÇÃO E O “BLUF” DA RUÍNA IMINENTE

Actualmente, o que a presidente da Câmara de VFX e alguma imprensa têm afirmado é que o TSM se encontra em “estado de ruína”.

Consultando o dicionário, “ruína” significa “resto de edifício desmoronado, destruição, perda” – o que não é verdade! Apesar da aparência exterior,  verifica-se que a estrutura de paredes-mestras de alvenaria está em condições firmes e que as asnas de madeira que suportam a cobertura estão bem preservadas, tendo protegido, não obstante todos estes anos de abandono, o seu interior  das intempéries. De outro modo, como teriam técnicos camarários encontrado recentemente todo um espólio com cem anos, num estado de preservação sem par?

Palavras como «O edifício está em ruínas», «e ameaça ruir a todo o momento. “A nossa segurança esteve em causa”.» , são proferidas a todo o momento, quer pelos órgãos autárquicos, quer pelos órgãos de comunicação social local, criando, errónea e ilusoriamente, a imagem de um cenário tenebroso e irreversível, que não é a que existe na realidade no interior do TSM, inacessível à população.

O estado actual do TSM deve caracterizar-se não como “ruína” mas “debilitado”, porque sofre de patologias não estruturais. Se a Câmara de Vila Franca se interessasse verdadeiramente por este bem imóvel muito facilmente o classificaria de monumento de interesse municipal.

Uma solução proveitosa, que manteria a linha de distribuição programática do novo projecto do TSM, seria reabilitar a actual sala de espectáculos, à qual é possível integrar as soluções técnicas impostas, em vez de a substituir por um outro corpo de auditório. No lote desocupado anexo ao edifício do teatro, edificar-se-ia, por outro lado, um novo corpo integrado para albergar os restantes espaços necessários. Esta sim, seria uma solução que respeitaria e dignificaria o edifício, sem deixar de responder às necessidades de expansão da colectividade que irá ocupar o espaço. Permitiria igualmente manter o apoio de eventuais mecenas, que ficariam com motivos ainda maiores para investir.

 

POR UMA VERDADEIRA RECUPERAÇÃO E QUALIFICAÇÃO
 
O Teatro Salvador Marques (TSM) em Alhandra vai ser demolido, e logo agora que completou cem anos de existência.

Sem prévia consulta popular, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira aparentemente assim decidiu – “Vai abaixo e vai acima”, disse a presidente, Maria da Luz Rosinha.

Demolir significa passar por cima de um século de História, que a própria autarca se comprometera a respeitar quando, em Agosto de 1998, aquando da aprovação das propostas finais do plano de pormenor da zona ribeirinha, afirmou: “Se for feita uma intervenção de fundo, como necessita, o edifício será classificado, salvaguardado e protegido e, como tal, será edifício de utilidade pública.”

Da aparência modesta do exterior não é possível depreender do TSM uma rica estrutura interior, mas trata-se da última réplica viva do Teatro Apolo em Lisboa, distinto no concelho de Vila Franca de Xira, único na arquitectura do espectáculo.

É um símbolo presente da Alhandra que floriu nos finais do século XIX e inícios do século XX, quando se fundaram a Sociedade Euterpe, o Clube Republicano, os Bombeiros Voluntários e o Teatro: movimentos associativos e culturais.

Construído com técnicas e elementos estruturais tradicionais, resultado da capacidade técnica da época (grossas paredes de alvenaria, asnas de madeira, tabiques e estafes), o TSM é um exemplo arquitectónico do modelo de província. De cuja tipologia é representativo, digno e distinto, com aspecto cenográfico que apraz todos nós.

É constituído por um núcleo, o auditório em forma de U, sobre e em torno do qual dois balcões com guardas elaboradas em ferro forjado de desenhos lineares animam as laterais no movimento rítmico das portas e separadores de madeira, que modelam o espaço interior.

Todos estes elementos, com formas lineares e curvilíneas, atribuem à sala de espectáculos exuberância e elegância. Sobre esta sala, a partir do centro assinalado pelo lustre (que já foi retirado), foco luminoso, expandem-se raios pintados de branco e azul celeste no tecto (que já não é o original). Sem esquecer o salão de dupla altura permitindo relações visuais e espaciais entre diferentes níveis.

E o modo integrado de conjunto com as coberturas dos restantes edifícios, sem descaracterizar a vista sobre os telhados da vila.

O mais importante teatro do concelho e um dos principais da província, por aqui passaram as principais companhias nacionais da primeira metade do século XX. Testemunho relevante, o TSM foi um centro de cultura de Alhandra, onde se proporcionou o acesso e produção de obras de teatro e cinema.

Esta é uma questão cívica, que nos toca a todos, alhandrenses ou não, pois trata-se de salvar um monumento.

Se a Câmara insistir em não escutar as aspirações dos cidadãos e em ignorar a memória histórico-cultural, vai aniquilar um espaço único no panorama nacional, supostamente já em Julho deste ano – no mês em que nasceu Salvador Marques, no ano em que este teatro comemora um século de existência.

É um exemplo de desprezo por um “ex-libris” que nos foi legado, e que  queremos deixar às futuras gerações.